Archive for the 'criancices' Category

Medinhos medonhos 1

Eu sempre fui super impressionável; quando era pequena não podia nem passar na frente da prateleira de filmes de terror na locadora que já sentia as mãos frias e o coração acelerado. Os títulos, as capas, era tudo MUITO apavorante. Eu passava por eles meio que olhando para o chão, para os lados, tentando não prestar atenção naquilo tudo. Meu medo quase fóbico tinha uns toques masoquistas, também: eu acabava lendo a sinopse no verso de uma ou outra capa realmente tétrica. E ficava com aquilo na cabeça por vários dias. Na real, não sei porque fazia isso. Era tipo uma curiosidade mórbida, bizarra. Da porra do ‘Hellraiser’, por exemplo, com sua cara cheia de alfinetes medonhos, nunca consegui me livrar totalmente e ainda fico meio arrepiada quando lembro da imagem. E eu NUNCA o assisti, é claro.

O problema é que essa condição não mudou com o tempo: até hoje eu fujo de filmes com capetas, cabeças cortadas, sessões de tortura, possessões malévolas, fumaças estranhas, vampiros, bruxas, zumbis, seres do limbo, gosmas e etcéteras. Chega a ser engraçado me acompanhar durante cenas com um pouquinhos mais de suspense. Invariavelmente eu me escondo atrás de uma almofada ou blusa de frio e, nos momentos escabrosos MESMO, chego ao cúmulo de tapar os ouvidos, no melhor estilo ‘não vejo, não ouço, não estou aqui’. Olha que mico. Eu tenho 25 anos, porra! Quando é que isso vai passar?

Lembro de quando vi ‘A Bruxa de Blair’ no cinema, com toda aquela atmosfera de documentário que criaram para a porra do filme. Tive que sair da sala e tomar água, dar uma passeada pelo cinema, me acalmar. E depois ainda fiquei umas quatro noites sem dormir direito. Mas sabe o que é pior? Eu NÃO aprendo.

Anos depois, lá vou eu no cinema assistir, por livre e espontânea vontade, ‘O Exorcismo de Emily Rose’. Caralhoputaquepariu. É a típica historiazinha de possessão, com demônios, padres e coisas estranhas que acontecem e ninguém explica. Mas sabe o que fode com quaquer racionalidade que eu tente ter? Aquela sentença que o cinema adoouura: ‘baseado em fatos reais’. ‘Baseado em fatos reais’ FODE com a minha imaginação. Porque aí eu não posso me agarrar ao mantra dos medrosos em filmes de terror - isso não existe, isso não existe. Porque EXISTE, sacou? E a minha criatividade masoquista vai looonge, looooonge… e a insônia de tensão vi batendo recordes sucessivos.

Por isso, por favor, não me convidem para filminhos tétricos, mesmo dos mais leves. Nem para aqueles de suspense sagüinolentos com gente despedaçada. Na verdade, só me chamem para desenhos animados com finais felizes, tipo ‘A Pequena Sereia’. Que, aliás, dentre os da Disney é o meu predileto ;)

 

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Celular movido a álcool
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Dia do que, mesmo?

Meus dias de criança na praia

Como uma garota que morou a vida toda no interior de São Paulo, em cidades geralmente beeem distantes do litoral, passar uns dias na praia era mais que a melhor parte das férias: era O Evento. Não só a distância impossibilitava que fôssemos como paulistanos ou essa gente que habita cidades próximas da praia, que em qualquer feriadinho vagabundo adoram esfregar na nossa cara de caipira que ‘vão descer pra Ubatuba’, mas toda a cultura familiar e os preparativos para a viagem fizeram com que essas aventuras se tornassem os trechos mais luminosos e sorridentes do filme das minhas memórias. 

Tudo começava bem antes do passeio em si. Meus pais - logicamente depois de discutir tudo entre eles - nos comunicavam alegremente que dali duas ou três semanas iríamos para a praia. Começava, então, uma época de semi-enlouquecimento da minha mãe, coitada, que tinha que providenciar uma mudança e não apenas roupas para uma família: remédios de todos os tipos, desde simplesinhos para alergias e enjôo até coisas ainda não aprovadas pelo FDA americano contra málaria, peste bubônica e gripe aviária; protetor solar suficiente para um batalhão acampar seis meses em Mercúrio; esteiras, cadeiras, guarda-sóis, biquínis, cangas, bonés, chinelos e mais uma tralha infindável que só eram realmente usados nesse muito esperado Evento.

Fícavamos ligados na previsão do tempo e desenhávamos sóis sorridentes com giz no chão do quintal, numa tentativa ritualística de espantar as chuvas e atrair o tempo bom. Acho que funcionou, porque não importa o destino ou a época do ano sempre pegávamos no máximo um ou dois dias de chuva.

Para aumentar a singularidade dessas excursões, a viagem era sempre MUITO longa. Veja que para uma criança de oito anos que vai à praia uma vez por ano e ama essa única oportunidade esperar num carro tedioso por míseros 30 minutos já seria mortalmente aborrecido. Mas era bem pior que qualquer meia horinha.

As cidades nas quais morei durante a infância e adolescência ficam a quase 700 km de qualquer praia. Isso significa uma trajeto de no mínimo 8 horas. E com petizes no carro, você tem que obrigatoriamente fazer várias paradas para xixis, descansos e snacks. Geralmente levávamos um dia completo até vermos o mar e outro na volta até avistarmos o portão de casa. Meus pais bem que tentavam minimizar a chatice e podíamos levar vários brinquedos e gibis e livrinhos, mas era impossível ficarmos totalmente distraídas.

Desse trajeto rodoviário a parte mais deliciosa era passar São Paulo e perceber que começava a serra; a partir desse ponto só faltavam duas horas! E então chegar na cidade, achar o hotel, correr com as coisas para o quarto e sair em louca disparada até a praia. Até comprovar que sim, o mar continuava ali, como estava da última vez.

Eu tinha - e tenho até hoje - uma estranha ligação física com o mar. Gelado, morno, azul, sujinho, com ondas ou no estilo piscinão, não me importava nada, apenas ficar imersa naquele monte de água. Batia recordes sucessivos de permanência ininterrupta em água salgada, eternamente acompanhada das minhas saudosas pranchas de isopor que em TODA SANTA VEZ meus abençoados pais compravam para mim. Pegava ondas e tomava altos caldos que me deixavam chorosa e de bico, mas sempre voltava a ele. Chegava a ficar com a barriga ralada do contato com a prancha =D

Já a minha irmã pequena preferia os brinquedinhos e a areia. Aliás, ela detestava ter de entrar na água e só ia até certo ponto, bastante aquém do limite que minha coragem mandava ir.

Essa é outra saudade nas minhas lembranças de praia. Minha mãe e meu pai ficavam na areia, debaixo do guarda-sol, me observando no mar. Conforme eu avançava demais em direção ao perigoso fundo, eles me chamavam de volta com escandalosos acenos de braços e mãos. O melhor momento era quando meu pai resolvia entrar um pouco também e com a segurança das mãos deles eu podia ir além do que me era permitido quando sozinha.

Lembro que enquanto éramos realmente pequenas sempre havia uma grande caixa de isopor com Toddynhos, Chambinhos, suquinhos de caixinha e lanchinhos para todo o dia. Farofa, eu sei, mas come on! Eram anos 80 e nós éramos pequenas! Essa história de sanduíches naturais, saladas de frutas e gente de luva cirúrgica fazendo os quitutes de praia é coisa muito recente. Na minha época, comida de quiosque e vendedor ambulante era garantia de dias no banheiro com diarréia crônica ou hepatite A - beem mais grave.

Outra preocupação familiar que não tinha muito a ver com a época era o tal do protetor solar. Minha mãe nos besuntava antes de sairmos do quarto e depois ao longo do dia, várias e várias vezes. Isso era bastante incomum; o que mais se via eram crianças ardidas ou sofrendo com insolação. Esse lance de se preocupar com câncer de pele também é moda bastante atual.

E no fim, depois de dias de felicidade incomparável ter de voltar para casa era mais ou menos como um castigo. Subir a serra e ver carros descendo em direção ao paraíso me despertavam sentimentos verdadeiros de inveja.

Mas aí lembrava que dali um tempo estaria de volta. E que o mar continuaria ali, quase como se me esperasse, exatamente como nas outras vezes.

 

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#meuprimeirobeijo
A Lógica do Primário
É aquele lá, pai?

Aventuras na Zona Leste, parte 2

A primeira parte dessas aventuras está aqui.

E no sábado Nicolas e eu fomos ao jogo do Corinthians contra o CRB, no Pacaembu. Antes tivemos que passar no Tietê e deixar nossa bagagem lá, já que logo depois da partida ambos viajaríamos - ele foi passar o domingo com a progenitora e eu voltei para São Carlos.

Beleza, só que todo esse trajeto nos atrasou terrivelmente. Como vocês sabem pela parte 1 das minhas aventuras zeéleanas, Engenheiro Goulart fica tipo em outra dimensão. Ou em outra galáxia, não importa; é muito longe, mas muuuuuuito longe mesmo. Para chegar ao Tietê tive a sensação de estarmos cruzando o estado e nos aproximando do Mato Grosso do Sul. Já tava até pensando em passar na casa da minha avó em Três Lagoas para tomar um café, mas aí chegamos ao Tietê. Qua ainda fica na cidade de São Paulo, contra todas as minhas suposições espaço-temporais.

Quando só faltavam 15 minutos para começar o jogo ainda estávamos no metrô Clínicas; para chegar ao Paca faltava andar um pedaçãããããããão, e um trecho desse pedaçãããããããão era ainda em ladeira. Ladeira para cima, né, estrupício :/ Nesse ponto eu estava desesperada. Melhor: eu estava DESESPERADA. O Nicolas achou que era pressa para ver o jogo desde os primeiros segundos, mas fato é que eu estava prestes a fazer xixi nas calças. Tinha tomado um monte de refrigerante no almoço e ele agora começava a pressionar minha bexiga para sair a qualquer custo. Nessas situações a gente não consegue pensar em absolutamente mais nada, já repararam? Eu queria, PRECISAVA fazer xixi. O Corinthians que se lascasse, eu queria um banheiro urgentemente.

Pior foi ter de sair correndo pela Dr. Arnaldo e tentar ao mesmo tempo manter o xixi no interior do meu corpinho por mais uns minutos. Foi como uma negociação com terroristas: ele queria naquele exato momento, eu tentava explicar que não dava, que tivesse paciência, que estava arranjando tudo conforme as condições dele, mas que esperasse só mais um pouquinho. Só mais um pouquinho, xixi, só mais um pouquinho.

De repente em plena Dr. Arnaldo surge o velório do cemitério do Araçá. Foi como um colete salva-vidas para quem está se afogando. Fiz cara de choro e pedi a uma funcionária para usar o banheiro. Se tivesse que dar qualquer explicação para convencê-la, pensei em dizer que eram problemas femininos. Com mulher essa desculpinha costuma colar super bem, mas nem foi preciso. 

Saindo do banheiro, me deparei com a seguinte cena: o Nicolas, coitado, me esperando num cantinho, vestindo uma camisa do Corinthians e segurando o lanche do Bob’s que não tinha dado tempo de comer. EM PLENO VELÓRIO. NO MEIO DA GALERA. Das situações mais surreais que presenciei, juropordeos. Eu tava num filme do Monty Python e não sabia!

Já no Pacaembu perdi o primeiro gol. Entramos a tempo, mas poucos segundos antes do juiz apitar o início do jogo, o bandeirão da Gaviões desceu, cobrindo todo mundo naquele lado da arquibancada. Tudo lindo, todo mundo cantando e agitando o bandeirão… quando ele sobe de volta, coisa de dois minutos depois, o placar marcava um a zero para o CRB o.O

Como assim, gente? Tinha o quê, um minuto de jogo, no máximo? É. O CRB abriu o marcador já no primeiro minuto e eu perdi ¬¬

Ao menos o Corinthians empatou logo aos três e nem tive tempo de me acostumar com a desvantagem.

Para quem tem receio de ir a estádio e ficar na arquibancada, no meio das organizadas, apresento a vocês Livia, de apenas 5 anos:

Além de ficar nos ombros do pai no meio da Gaviões, ela sabia TODAS as músicas de cor e cantava e agitava os bracinhos exatamente como as coreografias. Se é sussa para uma garotinha ficar no meio Da galera, por que não seria para você? Largue de ser tiozão medroso e vá de arquibancada na sua próxima ida ao estadio. E fique no meio das torcidas, que é muito mais legal!

Logicamente, como depois de toda partida que assisto no estádio, estava master rouca e cansada. Aliás, estou até agora, já que ontem fui até Ribeirão Preto ver o baile contra o São Caetano. Afinal, torcedor que é torcedor acompanha o time para todo lado, certo manoo? Firmeza!

Alguém ae quer me acompanhar nas próximas aventuras pela ZL? Ao menos o vocabulário da malandragem eu já tô adquirindo!

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Estrupícios, o último dia para participar da campanha Conheça a Rachel e ganhe $ 10,00 é amanhã. Já me mandou sua sugestão de banner para o blog?

 

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Modernidades
Macho alfa
Na incubadora

#meuprimeirobeijo

Meu primeiro beijo aconteceu perto do dia das crianças, não sei exatamente se no dia anterior ou no seguinte. Eu tinha 12 anos e estava passando o feriado na cidade da minha avó. Tinha ido ao clube com meus primos e estávamos tirando os times para jogar futebol. Era só eu de garota mas eles não costumavam se importar. Não que eu fosse boa; sempre fui um fiasco no futebol e na faculdade só quando jogava como goleira era minimamente passável. Mas sabe, né? Menina de fora, magrinha, cabelo claro… eu tinha todos os argumentos para convencer até os menos cristãos à idéia de me deixarem entrar em campo.

Não lembro de muitos lances dos jogos em si, mas lembro que um amigo do meu primo Henrique ficou na equipe adversária e que eu tinha achado ele interessante. Tínhamos a mesma altura e a mesma idade, mas ele era bem mais magro. Aos doze anos os moleques são magros esqueléticos ou gordinhos com banhas de pneu, não há meio termo. Já as meninas são todas feiosas e desengonçadas, é um padrão que aparece aos nove anos e permanece até os 14. Pode reparar, não há garota que se salve nessa faixa etária.

Lembro que marquei um gol. Todo mundo deve ter marcado uns quatro ou cinco, e eu consegui a proeza de marcar um único gol. Fiquei feliz com o saldo, comemorei subindo no alambrado, toda pinta de jogador profissional quando quer fazer média com a torcida. No fim de um dos jogos deixei todo mundo sair correndo para o bebedouro e fui ficando para trás. O Henrique me acompanhou e aproveitei a brecha para perguntar a ele sobre o amigo magrelão - vamos chamá-lo de André. Acho que disse que tinha gostado dele, ou algo parecido. Atentem para o detalhe: eu nem sabia o nome do pequeno cidadão. Eu nunca tinha ouvido a voz dele. Mas já tava gostando, dá para crer?

Depois, muitos anos mais tarde, descobri que os dois eram os melhores amigos do mundo, aliás, são amigos até hoje. Isso explica como, naquele mesmo dia, o André soube que a prima do Henrique tava afim dele. Nem preciso dizer que morri de vergonha, né? Mais vergonha ainda tive quando o cara deu um jeito de ficarmos sozinhos para perguntar se eu queria ficar com ele.

Gente, um pânico incontrolável me dominou naquele instante. Deve ter sido um dos momentos mais aflitivos da minha vida. Eu queria, mas parecia errado. Tipo um daqueles erros terríveis que a gente sabe que vai se arrepender dele para o resto da vida. Fiquei com a mão gelada, o coração batendo pesado, vontade de vomitar, tudo. Era como morrer devagarinho. E tudo isso só para responder a pergunta! Um universo de coisas e gentes (o que a minha mãe ia pensar se descobrisse?) passavam pela minha cabeça naqueles poucos segundos entre a pergunta e a minha resposta. Que foi, como vocês imaginam, ’sim’. 

Fomos para os fundos do ginásio, onde guardavam umas cadeiras velhas e todo o tipo de quinquilharias cobertas de pó. Tenho certeza que estava com cara de boi quando vai para o matadouro. Ou com cara de choro. Não lembro se rolou alguma conversa, só do moleque me abraçando e dos nossos dentes batendo desencontradamente. Na confusão do momento, não sabia se fechava os olhos ou abria a boca e onde pôr as mãos. Mas foi tudo rápido, bem rápido: o tempo suficiente para perceber que não gostava NADA daquilo de beijar na boca e fugir correndo do lugar.

Talvez só eu não tenha gostado da experiência, porque o André fez o possível e o impossível para pegar meu telefone e endereço com o Henrique e mandou várias cartinhas apaixonadas, que iam diretamente para o lixo - logo depois de lidas e relidas com as amigas, claro. Fiquei meio que traumatizada por oito meses, com aquele arrependimento de ter gasto o primeiro beijo com um menino de quem nem gostava, mas também aliviada de ter terminado com aquilo. Durante a adolescência era quase um crime nunca ter beijado na boca e os pobres BVs (vocês sabem o que significa) eram humilhados e discriminados por todo mundo. Com aquele momento de ousadia no dia das crianças, eu estava entrando na adolescência sem essa pendência, pelo menos.

Acho que essas primeiras vezes nunca são muito boas para ninguém. É difícil conter a explosiva mistura de ansiedade, vontade e vergonha, e ainda lidar bem com a pressão que amigos fazem. E acredito que foi bom não ter tido meu primeiro beijo com um cara de quem gostava. Eu teria ficado irremediavelmente apaixonada, como aconteceu com o segundo cara. E teria invariavelmente tomado um pé na bunda, como aconteceu com o segundo cara. Mas isso é história para outro post.

A Lógica do Primário

Quando eu estava no primário havia uma divisão velada entre meninos e meninas. Não era algo como água e óleo, que simplesmente não se misturam. Nós até sentávamos perto durante as aulas e conversávamos com eles no recreio, mas havia uma inegável tensão nas relações entre homens e mulheres de sete a onze anos. Posso nomear com facilidade ao menos 10 garotos que me atormentaram cruelmente durante esse período. Eles tinham uma carteira variada de ações desenvolvidas para nos fazer passar vexame ou irritação. Lembro especialmente de um infeliz que a cada frase que eu dizia ele imitava com a boca um barulho de peido. Não preciso comentar que eu corava até as orelhas de raiva e vergonha.

Esse tipo de bullying era generalizado: todas as minhas amigas passavam por situações semelhantes, de modo que compartilhávamos agressão e agressores. Era como se todos os garotos da terceira série se dividissem em células operacionais e fixassem alvos entre nós, meninas. E dá-lhe barulho de peido, puxão de cabelo, apelidos horrorosos e nojeiras mil. Aliás, no quesito nojeiras eles eram campeões: desde cuspir nos nossos tênis até voltar do banheiro e esfregar as mãos na nossa cara, em todas as ações cotidianas eles encontravam uma brecha para fazer coisas nojentas que nos deixavam atordoadas.

E veja, ao menos na minha turma as meninas não eram nada delicadas. Algumas sentavam cascudos e saíam no braço com eles mesmo sabendo que corriam o risco de uma surra bem dada – eu, por exemplo, fiz isso mais de uma vez. E mais de uma vez levei uns bons tabefes de garotos que nunca tinham ouvido falar na tal covardia de se bater em mulher. Porém, acreditem: era impossível se defender deles. Fosse ignorando, fosse partindo pra porrada, o escore finalmente era sempre um chocolate, fora o baile.

Certa vez, entretanto, notei uma discrepância em todo esse ódio. Tinha uns onze anos e formou-se um casal de namorados na turma. Para surpresa geral, estavam juntos justamente o menino que mais humilhava uma das garotas certinhas da sala. Ele era particularmente cruel e fiquei chocada que estivessem namorando. Porque, afinal de contas, eles não se detestavam? E nessa mesma época adotei uma das minhas primeiras teorias e que me acompanha até hoje: a Lógica do Primário. Esse nome não é invenção minha, mas achei perfeito.

Percebi que o cara que mais persegue a moça e que a despreza abertamente pode ser, muito provavelmente, louco por ela. E talvez por não ser correspondido ou por não aceitar ele próprio o sentimento, disfarce fingindo detestá-la. O moleque que vivia puxando meu cabelo na sexta série me confessou, depois de 10 anos, que era apaixonado por mim e não sabia como demonstrar. Por isso puxava meu cabelo.

Na faculdade, uma garota da minha sala tirava onda das perguntas e comentários de um colega de classe. Numa festa, ela bebeu demais, caiu no choro e admitiu para quem quisesse ouvir que na verdade adorava o Diogo mas achava que não tinha chances com ele. Era a Teoria do Primário aplicada na vida adulta. Tive várias outras comprovações de que ela realmente é aplicável.

É lógico que isso não dá sempre certo. Muitas vezes as pessoas se detestam MESMO, não é artimanha. Mas sempre que um cara pega muito no meu pé, não posso deixar de pensar que, no fundo, talvez ele seja doido por mim.

Monocotiledôneas e dicotiledôneas, paralelinérvias e reticulinérvias

Minha família é recheada de pessoas com queda para a jardinagem: minhas avós, tias, minha mãe e talvez até meu pai e meu avô, na época em que tinham chácara/sítio de subsistência - o que era muito comum no interior de São Paulo, lá pela metade do século passado, entre as famílias italianas mais humildes. Não sei se por essa tradição rural de necessidade mesmo (muito do que se comia à mesa vinha diretamente da hortinha dos fundos), mas todo o meu clã, tanto do lado materno quanto paterno, tem esse hábito adorável de jardim e quintalzão. Todos, menos eu.

Entre meus trocentos primos espalhados por esse mundão de meo deos, sou a única bióloga. E a única integrante que não tem o menooooor jeito - nem a menooor vontade, admito - para esses assuntos botânicos amadores. Mesmo minha irmã tem seus momentos mãos na terra e à vezes ajuda minha mãe a trocar planta de vaso e a adubar uns pedaços de jardim. Aliás, esse lance de jardinagem, apesar de amadorístico, tem uns procedimentos bem próprios: botar adubo, calcário (se a terra é muito ácida), molhar não sei com que freqüência, calcular tamanho de vaso, rechear com pedrinha ou com xaxim, usar uns suportes para trepadeiras, enfim, todo um manual recheado de ‘material e métodos’ inteligíveis apenas para os iniciados. Tem ainda uma conversa de mudar o vaso de lugar, porque a planta gosta mais/menos de sol, de sombra… e aí conforme vamos mudando de estação no ano, os vasos nos fundos da minha casa vão ziguezagueando pelo quintal. Como disse, é um mistério revelado somente aos escolhidos. 

E certamente esse gene ame as plantinhas! pulou a minha pessoa dentre as gerações do clã. A única incursão pela agricultura que adoro fazer e na qual tenho relativo sucesso é plantar feijãozinho em tufos de algodão molhado, dentro de potinhos de iogurte. A primeira vez que fiz essa ‘experiência’ foi no pré-primário e ainda existe uma filmagem caseira em que apareço toda serelepe e banguela mostrando meu querido pé-de-feijão-de-quatro-dias. 

Aos 14 anos, meu quarto tinha um minúsculo jardim de inverno com clarabóia. Na verdade uma porta dava para um espaço de quatro metros quadrados a céu aberto, com chão de cerâmica e onde batia sol por alguns momentos do dia. Mas inventei de transformar o local num nanojardim e enchi de pequenos vasinhos de plantas surrupiados da minha mãe. Devem ter durado umas três semanas, se muito. E isso porque tinha gasto uma puta grana com apetrechos de jardinagem, tipo pazinhas e luvinhas e suportezinhos fofos, e com revistas ESPECIALIZADAS em jardins de inverno. Vocês tem que concordar que eu não tinha jeito, mas era esforçada.

Depois disso, desisti. Fiz Biologia e todas as disciplinas de Botânica me entediavam mortalmente. Trabalho de campo em que tinha que me embrenhar no mato e contar espécime vegetal, então, era motivo para semanas de reclamações sem fim. Ou então fazer as benditas exsicatas com folha, flor, fruto… um pé no saco. A foto abaixo, feita durante o último projeto com excursão a campo no quarto ano da graduação, não me deixa mentir. Reparem na minha expressão de alegria, boa vontade e satisfação.   

matéria de eco vegetal - graças a deos acabou

Hoje em dia tento apenas não matar em dois dias as raras flores que compro. E nem perco tempo na floricultura pedindo as famosas dicas sobre quando molhar e onde deixar as coitadas. Já me conformei que de nada adiantará saber tudo isso: ao chegarem às minhas mãos, estão condenadas a um tempo de vida bem mais curto que o usual.

ps: se você curtiu esse texto, vai adorar este aqui também, do Ágora com Dazibao no Meio, do meu querido amigo Ricardo.

Série ‘Hoje o dia é meu’ - parte 4

Não, hoje o dia ainda não é meu… mas tá chegando! Não entendeu nada? As partes um, dois e três estão aqui, aqui e aqui também. Não esqueça de me dar ’parabéns’!

Meus pais estava casados havia apenas 7 meses quando minha mãe reparou num atraso anormal em sua menstruação regularíssima. Era eu, um amontoadinho de células iguaizinhas, já fazendo festa no útero dela e surpreendendo todo mundo. 

Quando o exame deu positivo - não sei a que altura da gestação ela resolveu testar - minha mãe colou um calendário na porta do banheiro, para acompanhar as semanas de gravidez. Escreveu um ’Rachel’ num canto do mês de março de 83, seguido de um ponto de interrogação, e a partir daquele dia passou a chamar o feto por esse nome. Sem nem saber o sexo da criança, já que os ultrassons da época não eram esse avanço que são hoje, que dá para antever até a feiçãozinha do petiz. Não, não. Mal e mal dava para saber que o nariz estava no lugar certo: já que as orelhas vêm em pares, a posição do nariz era mera suposição. Eu poderia ter nascido um moleque, e ela teria me chamado por 9 meses por um nome de garota.

Meu pai repete até hoje o chavão de que não esperava nem menino, nem menina, ‘apenas que fosse saudável’. Já minha mãe nunca fez cerimônia e desde que me conheço por gente ouço que uma filha com esse nome é materialização de todos os sonhos maternos dela. É uma baita responsabilidade, viu, carregar o peso de tanta esperança desde criança.

Se não fosse Rachel, seria… Rachel. Não havia alternativa, minha mãe não permitia. Se fosse menino, talvez chamasse Caio Plínio, a combinação mais escabrosa que já vi com ambos os nomes. Ainda bem que os gametas se juntaram certinho e hoje sou uma orgulhosa XX, escapando da sina de me chamar Caio Plínio, aargh.

A gravidez foi tranqüila. Mamãe engordou apenas 10 kgs e não teve os habituais enjôos. Já estava com 27 anos - nasci no ano em que ela completava 28 e meu pai, 34 -, emprego estável, carro próprio e essas coisas. A casa própria chegaria junto com meu primeiro aniversário, tudo estava indo bem. Naquele roteiro idílico de ‘casar e contituir família’, minha chegada não-programada era o segundo item importante do caminho. Eles levariam mais quatro anos e meio de aventuras parentais para o nascimento planejado da minha irmã.

Lá pelo início de março, o casal foi à última consulta com o obstetra. Uma alegria: estava tudo ótimo com o bebê, a cesariana poderia ser realizada na semana seguinte sem nenhum problema. Meus pais saíram do consultório direto para um bar, para comemorar as boas notícias. Voltaram para onde moravam na época, distante 40km da cidade onde nasci, já pela madrugada, cansadíssimos. Quando chegaram em casa, minha mãe começou a sentir as contrações. Meu pai dormia, desmaiado. Ela esperou, bravamente, até a manhã daquele dia, para que papai tivesse tempo de descansar um pouquinho. Só então ligaram para o obstetra e voltaram para o hospital.

Fico imaginando o que pensou minha mãe enquanto caminhava sozinha pela casa, de madrugada, com o primeiro filho querendo lhe rebentar o ventre. Fazia planos, imaginava meu rosto? Preocupava-se com a minha saúde ou com meu futuro? Pensava, talvez, em meu pai, que dormia, ignorando tudo que se passava a sua volta? Ou, na verdade, refletia sobre si própria, sua condição de mulher e, a partir daquele dia, de mãe? Ela era pouco mais velha que sou hoje e não consigo imaginar a qualidade dos pensamentos que a tomaram, então.

Arrisco dizer que ela pensou em tudo. Junto e misturado e embolado. E das dúvidas que teve naquela época, é possível que agora só saiba as respostas. 

Homens…!

Alguns ainda me surpreendem.

 .racHELL diz:
teu nick complementar, ‘come to bed’. triste isso.
vaeiou diz:
vc imagina da onde eu tirei isso?
.racHELL diz:
e eu sei lá? mas parece filme triste.
.racHELL diz:
ok, ok. conte-me. de onde vc tirou?
vaeiou diz:
em um dos episódios do seriado sex and the city, elas foram em um bar q se chamava Bed e o slogan era `come to bed`… e o pessoal ficava em cima delas e tal
.racHELL diz:
AHAHAHAHAHAHAHAHA
.racHELL diz:
vc gosta de sex and the city?
vaeiou diz:
eu assisti todos os ep
vaeiou diz:
eu divido minha vida em antes e depois de satc
.racHELL diz:
CE JURA?!
vaeiou diz:
opa
.racHELL diz:
tenho um amigo q fala q é seriado de mulher e q nenhum cara hetero consegue ver sem cair no sono dps de 4 min
vaeiou diz:
assisti a série toda… logo depois de um fim de namoro…. e tal…
vaeiou diz:
estava indo na academia… malhando…
vaeiou diz:
acupuntura…
.racHELL diz:
AHAHAHAHAHHAHA
.racHELL diz:
fim de namoro é foda.
vaeiou diz:
tava com a piroca maluca…
.racHELL diz:
ahahahahahahaha
vaeiou diz:
o seriado é fino pq mostra as mina bonita com uns homens feios..
vaeiou diz:
nao q eu seja feio, mas…
vaeiou diz:
mostra os feiao xavencando e levando as gata…
vaeiou diz:
haha… entrei na onda e fui…
.racHELL diz:
o importante é a atitude, believe me.
.racHELL diz:
é mentira, não é O importante. mas tem alguma importância. pequena, bem pequena.
vaeiou diz:
claaaaaaro
.racHELL diz:
AHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHA

* o Veio tá aqui.

Me vê um lote fechado disso ae

Algumas coisas são sagradas. Paz e tranqüilidade para sorver meu toddynho pela manhã são, indubitavelmente, sagradas. Por pior que sejam minhas expectativas para o dia que começa, por mais sono que eu tenha, ao menos a redenção oferecida pelo toddynho matinal existe e nela posso confiar.

Daí a Hershey’s mete o pé na garganta do consumidor, com chuteira de travas de alumínio, e diz ‘não, você não entende nada de bebida láctea infantil sabor chocolate. Vou te mostrar como é que se faz’.

hersheys

 Deixem-me frisar duas informações importantes dessa embalagem às quais talvez vocês não tenham conferido o merecido valor:

1. ‘deliciosamente cremoso’

2. ‘muito + chocolate’

Se deus realmente existe e está nos detalhes, juro que ele me aparece nas manhãs em que puxo o lacre do meu toddynho Hershey’s. E ainda me pede um gole, o filhodaputa.

Série ‘Hoje o dia é meu’ - parte 1

Brigadeiro, cachorro-quente, bexiga e refrigerante morno 

Quando eu era pequena era comum fazer aniversários temáticos: toda a decoração da festa, os convitinhos, comidas e bebidas e, às vezes, até a roupa da petizada eram baseados em algum tema. Tive o clássico da bailarina, quando completei meu primeiro ano de vida; as fotos mostram uma mini-garota não muito contente por estar rodeada de adultos desconhecidos e barulhentos, vestindo algo semelhante a um colant e uma saia de tule rodada, tudo em rosa clarinho. Nos momentos em que não estou às lágrimas e fazendo manha, ensaio palmas descoordenadas com duas mãozinhas minúsculas, devidamente incentivada por papai ou mamãe babões de orgulho da cria. Como se bater palmas fosse merecedor do Pulitzer ou whatever.

Aos dois anos tive uma festa em clima meio havaiano, quando minha mãe montou um mini-coqueiro com rede e bonequinhos em cima do bolo e me vestiu em roupas tropicais e peladas. Ela era realmente criativa e hoje imagino que consegue gostar ainda mais que eu dos meus próprios aniversários.

Inesquecível também foi uma festa que teve máscaras de bichos feitas de papel e presas à cabeça com elástico. Obviamente escolhi a de gatinho e os meninos brigavam pelas poucas de leão. Acho que falei desse aniversário num dos textos da série Pequenos Romances.

Minha irmã teve um sensacional com motivos do Meu Pequeno Pônei. Toda menina com mais de 20 anos vai se lembrar dos cavalinhos coloridos de longas crinas sedosas e corações no bumbum. Na festa dela tudo era do Meu Pequeno Pônei, até a decoração da mesa, as bexigas, as sacolinhas-surpresa (lembra das sacolinhas-surpresa?), absolutamente tudo. Na época também estava na moda contratar um palhaço ou um mágico para distrair a molecada, e a minha irmã simplesmente amou o palhaço que meu pai levou.

Quase morri de ciúmes quando ela ganhou uma festinha com decoração da Cinderela. Tinha uma maquete do castelo cobrindo o bolo e uma carruagem linda, tudo em isopor rosa e branco e muito glitter. Desde então tento sem sucesso organizar meu aniversário a la Ariel, a Pequena Sereia, minha personagem Disney preferida desde os 6 anos. Imagina uma festa estilo fundo do mar galera fantasiada? Sempre quis saber como ficaria de ruiva…

Tinha também festa em sorveteria, que todo mundo tomava tipo uns dois sundaes e passava o resto da tarde atormentando os funcionários do lugar. A alta glicemia sangüínea combinada com a pequena faixa etária dos convivas resultava em algo parecido com a II Guerra Mundial, com feridos, campo de prisioneiros e traumatizados de combate.

Num outro evento, acho que quando fiz 5 anos, minha mãe encomendou um bolo que era a casa da bruxa de João e Maria: uma casinha perfeita toda de massa de bolo, chocolate e confeitos. As fotos são incríveis. Eu estava elegantemente vestida com um top vermelho que teimava em cair e se manter sobre a minha barriga e uma saia da mesma estampa. E sandálias brancas e cabelos presos em rabinhos despenteados. Vaporosa e exuberante aos 5 anos.

Quando eu era criança e fazia aniversários que ainda não continham números na casa das dezenas, era costume dar de presente bonecas, panelas e pratinhos de brinquedo, ursinhos, coisinhas coloridas realmente infantis. A gente brincava de pega-pega e esconde-esconde, de corrida e de subir em árvores. Retorno de festas de aniversário alheias sempre significou pernas e joelhos arranhados, cabelo desgrenhado, rouquidão e um cansaço feroz. Eram horas de martírio para a mãe do aniversariante e de alegria incontida para os pequenos convidados.

Daí vejo criança pedindo celular de presente. A filha de 6 anos de uma amiga ganhou uma roupa do Rebeldes que não tira nem para dormir. Eu estava achando isso tudo o maior absurdo até saber de uma garota de 10 que fechou uma boate para os amigos e contratou go go dancers e barmen especializados em bebidas sem álcool (para não irritar os pais dos colegas, porque acho que os mini retardados prefeririam encher a cara). Eles não sabem, mas estão perdendo uma das melhores partes da infância. E, certamente, as mais nostálgicas lembranças.