Não, hoje o dia ainda não é meu… mas tá chegando! Não entendeu nada? As partes um, dois e três estão aqui, aqui e aqui também. Não esqueça de me dar ’parabéns’!
Meus pais estava casados havia apenas 7 meses quando minha mãe reparou num atraso anormal em sua menstruação regularíssima. Era eu, um amontoadinho de células iguaizinhas, já fazendo festa no útero dela e surpreendendo todo mundo.
Quando o exame deu positivo - não sei a que altura da gestação ela resolveu testar - minha mãe colou um calendário na porta do banheiro, para acompanhar as semanas de gravidez. Escreveu um ’Rachel’ num canto do mês de março de 83, seguido de um ponto de interrogação, e a partir daquele dia passou a chamar o feto por esse nome. Sem nem saber o sexo da criança, já que os ultrassons da época não eram esse avanço que são hoje, que dá para antever até a feiçãozinha do petiz. Não, não. Mal e mal dava para saber que o nariz estava no lugar certo: já que as orelhas vêm em pares, a posição do nariz era mera suposição. Eu poderia ter nascido um moleque, e ela teria me chamado por 9 meses por um nome de garota.
Meu pai repete até hoje o chavão de que não esperava nem menino, nem menina, ‘apenas que fosse saudável’. Já minha mãe nunca fez cerimônia e desde que me conheço por gente ouço que uma filha com esse nome é materialização de todos os sonhos maternos dela. É uma baita responsabilidade, viu, carregar o peso de tanta esperança desde criança.
Se não fosse Rachel, seria… Rachel. Não havia alternativa, minha mãe não permitia. Se fosse menino, talvez chamasse Caio Plínio, a combinação mais escabrosa que já vi com ambos os nomes. Ainda bem que os gametas se juntaram certinho e hoje sou uma orgulhosa XX, escapando da sina de me chamar Caio Plínio, aargh.
A gravidez foi tranqüila. Mamãe engordou apenas 10 kgs e não teve os habituais enjôos. Já estava com 27 anos - nasci no ano em que ela completava 28 e meu pai, 34 -, emprego estável, carro próprio e essas coisas. A casa própria chegaria junto com meu primeiro aniversário, tudo estava indo bem. Naquele roteiro idílico de ‘casar e contituir família’, minha chegada não-programada era o segundo item importante do caminho. Eles levariam mais quatro anos e meio de aventuras parentais para o nascimento planejado da minha irmã.
Lá pelo início de março, o casal foi à última consulta com o obstetra. Uma alegria: estava tudo ótimo com o bebê, a cesariana poderia ser realizada na semana seguinte sem nenhum problema. Meus pais saíram do consultório direto para um bar, para comemorar as boas notícias. Voltaram para onde moravam na época, distante 40km da cidade onde nasci, já pela madrugada, cansadíssimos. Quando chegaram em casa, minha mãe começou a sentir as contrações. Meu pai dormia, desmaiado. Ela esperou, bravamente, até a manhã daquele dia, para que papai tivesse tempo de descansar um pouquinho. Só então ligaram para o obstetra e voltaram para o hospital.
Fico imaginando o que pensou minha mãe enquanto caminhava sozinha pela casa, de madrugada, com o primeiro filho querendo lhe rebentar o ventre. Fazia planos, imaginava meu rosto? Preocupava-se com a minha saúde ou com meu futuro? Pensava, talvez, em meu pai, que dormia, ignorando tudo que se passava a sua volta? Ou, na verdade, refletia sobre si própria, sua condição de mulher e, a partir daquele dia, de mãe? Ela era pouco mais velha que sou hoje e não consigo imaginar a qualidade dos pensamentos que a tomaram, então.
Arrisco dizer que ela pensou em tudo. Junto e misturado e embolado. E das dúvidas que teve naquela época, é possível que agora só saiba as respostas.


