Monthly Archive for Janeiro, 2008

Toddynho, suco de maçã, café solúvel, detergente…

Então, ontem fui ao supermercado. Já fazia uns 10 dias que precisava comprar gêneros alimentícios para meu lar (curtiu o tiazona-dona-de-casa style?), mas como eu ODEIO fazer isso fico adiando até o ponto de me tornar sócia honorária da padaria perto do trabalho. Quando começo a ter vergonha de passar por lá todo santo dia de manhã e depois do trabalho, aí me obrigo a fazer compra.

É uma tarefa que me desagrada tanto que geralmente vou à noite, perto do horário de fechar; levo 20 minutos no máximo e não tiro o iPod do ouvido nem por decreto papal. Aliás, é bem provável que se o papa aparecesse na minha frente eu pediria para ele me alcançar 4 caixas de leite desnatado da Parmalat, por favor. Quando morava em Ribeirão Preto, ia ao Pão de Açúcar de madrugada. Era beeeem mais agradável: geralmente além de mim tinha outros insones, alguns casais gays e a galera da limpeza. Vez ou outra éramos contenplados com a presença de estudantes colegiais bêbados em busca de outra garrafa de Askov ou Balalaika - plástica, ok? Mas onde moro agora não tem nenhum 24 horas, por isso fico postergando o tormento até o aviso da empregada, que está limpando a casa com água desde a semana anterior porque se acabaram todos os produtos.

Enfim, ontem me obriguei a ir. Chegando no inferno supermercado, dei pulinhos de alegria pela minha esperteza: estava frio e chovendo e por isso não tinha quase ninguém. Não havia velhinhos que empatam o corredor com carrinhos lotados. Não havia crianças birrentas de voz esganiçada. Era a resposta às minhas preces. Eu sei, eu sei, fico de muita má vontade quando preciso ir ao supermercado, mas tem tem coisa mais irritante que…

… papel higiênico perfumado? Gente, me diz a verdade, não tem, tem? E nos ’sabores’ lavanda, aloe vera e jasmim. Para o cu ficar cheirando floricultura de quinta categoria? E o pior é que os tiozinhos colocam os ‘neutros’ escondidos ou lá no alto, na última prateleira. Ou fazem aquela cachorrada de botar a promoção só nos perfumados. Aí cê tá meio desatenta e lê que o pacote com 32 rolos de 450 km de papel cada um tá custando… 85 centavos. A espertona aqui vai e compra um carregamento de papel higiênico ’sabor’ neutro e quando chega no caixa percebe que a promoção era só para o ’camomila’. Aquele amarelo vibrante que devia ser sabor de chá, não de papel para limpar o cu ¬¬

… leite desnatado no alto do monte Everest? Eles enfiam as caixas de leite desnatado na mesma altura do nariz de jogadores de basquete da NBA. E pessoas como eu, de estatura humanamente normal e que detestam leite se não for o desnatado, pagam o mico de dar pulinhos para chegar na última prateleira.

… amaciante de roupas a 15 conto? Porque o único produto que eu faço questão de comprar o melhor é amaciante de roupas. Mas tem que custar o horror que custa? Tá tabelado em euro, por acaso? Em todos os outros itens me guio pelo bom senso, tentando comprar um artigo de qualidade com preço razoável, menos com o amaciante de roupa. E levar um meia boca (que ainda assim é caro) me quebra as pernas.

… o sumiço dos desodorantes sem perfume? Por algum motivo, qualquer odor forte pela manhã me incomoda demais e há anos tenho usado desodorante sem perfume, mas eles sumiram do mercado. Talvez porque não tenham grande saída ou porque as marcas têm investido em nomes e aromas sofisticados como se fosse perfume. O fato é que sem perfume só encontro aqueles sprays bizarros, que são o mesmo que dar uma esguichada de álcool etílico no sovaco. E isso logo depois da depilação é fatal, não dá. Aí perco o maior tempo escolhendo e cheirando tooooodos os disponíveis. Pior: na maioria das vezes não consigo escolher nenhum, ou compro e depois acabo deixando para a minha irmã.

… MPB de supermercado? Tipo, não é Ana Carolina, não é Djavan, é coisa pior, muito pior. São artistas desconhecidos com músicas cafonas, ou então sucessos enterrados nos anos 80 que nunca deveriam ser relembrados. Graças ao Steve Jobs existe o iPod.

… aquelas propagandas de grandes redes com slogan e jingle? Repetido INCANSAVELMENTE?

Diz se eu não tenho razão para detestar ir ao supermercado?

Chuck Norris’ action figure has slept with more women than most men

Sabe o que acontece se você digitar ‘find chuck norris’ no Google e clicar em ‘estou com sorte’?

Google won’t search for Chuck Norris because it knows you don’t find Chuck Norris, he finds you.
No standard web pages containing all your search terms were found.

Your search - Chuck Norris - did not match any documents.

Suggestions:

  • Run, before he finds you
  • Try a different person

Juropordeos. A dica tá no TecnoTrash e eu TIVE que testar, né?

 E ainda lembrei de uma listinha de ‘Chuck Norris lines’ que tava esquecida num bloco de notas qualquer aqui do pc:

  • There is no theory of evolution. Just a list of animals Chuck Norris allows to live.  
  • Chuck Norris counted to infinity. Twice.
  • Chuck Norris’s tears cure cancer. Too bad he has never cried.
  • Chuck Norris invented the Caesarean section when he roundhouse-kicked his way out of his monther’s womb.
  • Chuck Norris has to sleep with the light on. Not because he’s afraid of the dark, but because the dark is afraid of him.
  • Chuck Norris is currently suing NBC, claiming Law and Order are trademarked names for his left and right legs.
  • Chuck Norris isn’t hung like a horse - horses are hung like Chuck Norris.
  • There is no ‘ctrl’ button on Chuck Norris’s computer. Chuck Norris is always in control.
  • Apple pays Chuck Norris 99 cents every time he listens to a song.
  • Chuck Norris can kill two stones with one bird.
  • Chuck Norris doesn’t wear a watch, HE decides what time it is.
  • Chuck Norris’ hand is the only hand that can beat a Royal Flush.

Fica esperto, mano.

Patinação

Um dia bestamente ruim. Não, eu não descobri que sofro de uma doença terrível, incurável ou que cause grande sofrimento. Ninguém que conheça e aprecie muito morreu. Não fui demitida e nenhum chefe fez menção de comer meu fígado. Não discuti com meus pais nem com algum amigo. Não bati o carro. Não cortaram errado meu cabelo.

Mas a gente sabe que para o dia ser particularmente triste não é necessário nenhuma tragédia. Só um ou outro pensamento fora de hora ou aquela comparação recorrente que (você sabe) é capaz de sabotar o sorriso.

Assim, me flagrei revendo este glorioso dia que, para minha aflição, ainda não acabou e tem tudo para ser fechado com emocionantes cenas finais.

Acordei - sozinha - muito cedo, mais do que a sanidade mental recomenda. Fui para um emprego que não me traz nenhum prazer especial. Não é o tipo de trabalho para o qual me preparei tão arduamente durante a faculdade, nem aquele que escolhi, mas que mantenho por alguma conveniência modorrenta. Voltei para casa, novamente sozinha, dirigindo pela cidade que não gosto mas que me forço a habitar, para uma noite sem perspectivas nem significados.

Quando percebi que o choro que segurava desde o almoço me escaparia assim que pisasse no apartamento, tentei incluí-lo na programação do dia, de maneira a alterá-la o menos possível. Pensei ‘posso chorar até as sete e meia; depois vou precisar de 30 minutos para tirar o inchaço do rosto e dos olhos e então ir para a academia’.

Moderar o tempo de choro como mais uma das atividades vazias do meu cotidiano foi o grande desalento desse dia.

ps: em parte isso tudo é devido à TPM.

Ode ao beijo roubado

É com pesar que comunico: perdeu-se a prática do beijo roubado. Não existe mais, desapareceu com a popularização do ‘ficar’. Quem hoje furta ósculos quando micaretas proliferam por todos os cantos? Sinto por quem que nunca foi surpreendido pelo encontro confuso de narizes e lábios que caracteriza o beijo tomado de assalto. E por aqueles que não foram atormentados pela dúvida quanto ao momento mais adequado – ‘agora? quando ela virar o rosto?’ – e pelo medo da reação da vítima: sorrisos, fugas e semblantes totalmente surpresos que nem Paulo Autran seria capaz de mimetizar.

As múltiplas variáveis e incógnitas que recheiam um beijo roubado fazem dele uma arte. Quase sempre obra de um rapaz, a prática não é utilizada quando em público ou em meio a um grupo de conhecidos; é beijo economizado para situações de intimidade com a vítima. A vantajosa surpresa provocada pela manobra vem da escolha do momento certo: um elogio, uma graça qualquer e a garota esboça aquele sorriso contido, de poucos dentes à mostra. Eis o sinal para que lhe seja pipocado um beijo roubado clássico, que no caminho resvala nas mechas de cabelo, na pontinha do nariz, talvez um pouco do queixo. Enfim, pontaria não está no rol de pré-requisitos para uma prática bem conduzida. Diria até que tal encontro imperfeito é que confere naturalidade ao ato.

Num outro extremo, mas que apresenta igual graça e doçura, está o beijo arrancado quase à força, num átimo de coragem, quando o coração está prestes a rebentar de ansiedade. Não há tempo para planejamentos ou decisões; num instante está a moça a falar animadamente sobre assunto qualquer, noutro o garoto já a traz colada aos lábios, uma mão a puxar-lhe o pescoço, a outra a prender-lhe a cintura. Ambos sem entender o que se deu entre o primeiro e o segundo instantes. Se na modalidade clássica o beijo dura frações mínimas de tempo, aqui pode levar alguns longos segundos até que vítima e algoz consigam esboçar reação.

Reação essa que contempla uma longa lista de atitudes catalogadas – e, entretanto, inesperadas. Há o típico tapa estalado na cara do ladrão, que pode seguir-se de fuga intempestiva, lágrimas e olhar rancoroso. Porém, pode simbolizar apenas o susto de uma moça direita que, refazendo-se da surpresa, reagiu sem pensar. E assim que toma ciência de tudo o que a acometeu, cai de volta nos braços do rapaz, para outro afogueado beijo. Consentido, dessa vez.

Enfim, se digo que se trata de uma arte, vê-se que não exagero. E creio que no futuro ainda haverá compêndios e estudos acerca do beijo roubado, quando infelizmente figurar-se moda aprisionada no passado.

Teorias e conselhos absurdos

“Por que RAIOS eles não ligam no dia seguinte?” Essa é uma pergunta que atormenta mulheres de todas as idades, já que a maioria se julga totalmente inapta a entender a mente masculina, vista muitas vezes como o grande mistério da existência, o caos biológico ou simplesmente um grande ponto de interrogação a permear nossos questionamentos.
Obviamente eu não tenho a resposta, mas elaborei teorias que me ajudaram a superar os momentos angustiantes da espera pelo toque do celular anunciando que o cidadão se lembrou da minha pessoa e resolveu ligar - ou, com essa maldita moda de SMS, me mandar uma mensagem.

1 - A Teoria dos 7 Dias

A Teoria dos 7 Dias assume que se o cara disser “amanhã eu te ligo” há 90% de chances dele ligar no prazo compreendido entre 4 e 10 dias; geralmente isso acontece por volta do 7º. Alguns, mais ansiosos, ligam em 3. Outros levam 15 dias para enviar um simples torpedo. Essa teoria já foi comprovada inúmeras vezes por mim e pelas minhas amigas, e alguns caras admitiram que a coisa funciona mais ou menos assim mesmo.
A Teoria dos 7 Dias ainda conclui que o fato dele dizer que vai ligar demonstra que ele não espera que você ligue antes. Assim, roa as unhas, as mãos, os tocos dos cotovelos, mas não ligue. Se ele desaparecer, não teria adiantado nada você ter ligado antes mesmo.

2 - O poder do mantra “Toca, telefone, toca!”

Através da mentalização desse feminino mantra ocidental e secular, é possível que todas as suas energias sejam focalizadas no objeto (o cara) e no canal entre vocês (o telefone). Repita várias vezes, em voz alta ou apenas na sua cabecinha fraca, e se concentre. Funciona melhor se feito olhando hipnoticamente para o telefone.

Esse mantra se mostrou eficaz em poucos casos. Mas ainda é bom para provocar risadas incontroláveis nos arredores e distrair sua atenção para a sua própria figura ridícula.

3 - Pré-preparativos

A ansiedade é tanta que a gente nunca consegue fazer nada receber a bendita ligação. E depois que ele liga não conseguimos fazer nada porque ficamos ligando para todas as amigas da agenda com dois objetivos: fofocar e decifrar a simbologia embutida em frases ambíguas de um diálogo como “Oi, tudo bem? Vamos sair amanhã? Legal, eu passo na sua casa. Beijão” - O que ele quis dizer como ‘legal’? Onde vocês irão? Por que sair justamente amanhã? Enfim, perguntas de grande importância para o futuro do relacionamento de vocês. Mas o que fazer para passar o tempo até esse telefonema fatídico? Os preparativos para depois que ele ligar, claro!

Explico: ele ainda nem ligou. Para ser sincera, você nem sabe se ele vai mesmo ligar. Mas para se distrair já pode ir pensando na roupa que vai usar quando vocês se virem de novo, com acessórios e calçados apropriados, um make legal, cabelo arrumado. E experimentar tudo isso na frente do espelho, com todas as combinações para todas as ocasiões possíveis, desde festa de aniversário de criança, passando por jantar a luz de velas em Paris a enterro da vovó.

Você também pode fazer um roteiro de assuntos para conversar com ele, com perguntas e respostas e ainda respostas-chave, para usar em situações que você não entender lhufas, como a guerra das Malvinas, a última safra de vinhos chilenos, filmes expressionistas alemães, a tabuada do sete, essas coisas complicadas.

Ainda nesse intervalo em que ele não ligou, você vai ter tempo para um surto Amélia, porque vai que vocês resolvem esticar a noite e terminar na sua casa? Ele não pode encontrar milhares de coisas jogadas no seu quarto - aquelas que você estava experimentando para o encontro. Então você começa a fazer os pré-preparativos pós-encontro: arruma toda a casa (mentira! Esconde nas gavetas e no closet da sua irmã para arrumar depois. Mentira de novo! Você levará semanas para conseguir separar as suas peças das dela); grava um CD especial com músicas para… ahm… fazer ruído que abafe o de vocês; testa as molas do colchão e o movimento da cama (vai que tá batendo na parede?); compra comida (nunca tem comida em casa); etc, etc, etc. Realmente, há muito o que fazer.

E entre um surto e outro, você acaba comprando um abajur ridículo. Rosa.

Notícias que mudarão sua vida 3

Adoooooro chochar a Ivete?

Diz-se por aí que Ivetão está sortêra e avursa novamente - e justo às vésperas do carnaval, olha que coincidência. Parece que o namoro de dois meses (durou tudo isso?!) com o (cof, cof) modelo croata tcheco (ui!) bósnio sérvio Jhjfg Rirjdkgm (não é importante, né, gente?) não resistiu à distância.

Tipo assim, o problema não é que Ivetão seja tão elegante quanto aquelas que descem até o chão, nem a moqueca estragada que fez o rapaz cagar líquido por uma semana, nem as centenas de mulheres realmente maravilhosas com quem ele convivia nos backstages da vida. Não, não. O problema foi a distância, mesmo: duas semanas longe foram demás para a paixão do casal.

Ivetão, amor, só te digo uma coisa: perdeu, playboy. Bjosmeliga.

Maldita gordura trans

Eu odeio a gordura trans. Não porque faz mal, não porque é a responsável pelo LDL, que é o colesterol “ruim” que entope as artérias (ou esse é o HDL? Sei lá), não porque só traz malefícios e todas as coisas gostosas tem gordura trans de balde. Eu odeio a gordura trans porque só se fala nisso. Porque todo mundo agora te olha com cara de nojo quando você está prestes a comer um pastel de feira frito naquele óleo escuro que só serve para o biodiesel. Eu odeio a gordura trans porque uma coisa é informarem que certas substâncias fazem mal, e outra, completamente diferente, é proibirem essas substâncias. E é exatamente o que vai acontecer com a gordura trans logo, logo.

Quero deixar uma coisa clara: não como frutas porque acho gostoso. Prefiro um pacote de batatas Rufles sabor churrasco, mas engorda horrores, e não quero engordar por puro senso estético, nada mais. Se magra-de-ruim fosse, só comeria bobagens e tomaria coca-cola all day long. Tento me convencer diariamente que alface é uma delícia, mas bom mesmo é lasanha 4 queijos. Com molho branco. E cheesecake na sobremesa.

Não teria problema nenhum só ser informada sobre a existência de gordura trans, mas dia desses fui almoçar nem lembro o que, e meu pai mandou “você sabe quanta gordura trans tem nisso aí?”. Eu sei, perfeitamente. E ainda assim vou comer isso aqui. E num outro dia, jantando com a minha mãe e minha irmã, pedi um super sanduíche. Estávamos no America, um restaurante especialista em hambúrgueres. E o que acompanha super bem um hambúrguer com batata frita? Coca-cola, óbvio. Mas minha mãe insistiu e eu tomei um suco de laranja com acerola, que também é ótimo, mas não combina, e vacilou tem mais calorias que a coca. E a minha preocupação, repito, é puramente estética. Tô me fodendo pras minhas artérias: estão lá dentro, ninguém vê, mesmo.

Certeza que quem ler esse texto vai pensar “isso, idiota, vai nessa. Depois morre infartada.” E eu também estou me fodendo pra morrer infartada. Pensa: tem montes de atletas ae com colesterol alto e o escambau. E é atleta, hein, eles se exercitam loucamente e têm uma dieta super rígida, o nutricionista na cola deles. Então, por que eu, pobre mortal, vou ficar me preocupando com uns números que aparecem quando faço exame de sangue?

Acho super legal ser obrigatório constar do rótulo das embalagens a quantidade de gordura trans que a porção do alimento contém. Mas deve ficar a cargo de cada um escolher o que prefere, sabendo dos malefícios de cada componente, e ter a liberdade de fazer essa opção sem se sentir coagido.

Ooo, lá em casa! 2 - Jonathan Rhys Meyers

Jonathan, vamo lá pra casa!

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Se você quiser a gente brinca de Henrique VIII e Ana Bolena.

Pequenos romances 3

Conforme prometido, o terceiro texto da série sobre amores na infância (aqui está o primeiro texto e ali o segundo). Autobiográfico, claro. Deve haver mais um, o quarto deles, até o final da semana. 

Que tal ficou?  

Meu maior e mais duradouro romance de infância aconteceu aos 6 anos. Nessa época me apaixonei perdidamente por um menino que morava a poucos metros da minha casa e que encontrava todos os dias na pracinha da esquina, onde íamos andar de bicicleta nos finais de tarde. Ele era magrinho, com um cabelo castanho cortado no famoso estilo “tigela” e andava de bicicleta muito mais rápido que qualquer outro garoto. Não demorou muito para ficarmos amigos. Mais que amigos, nos tornamos inseparáveis.

A atividade predileta era andar de bicicleta, lógico. Mas nos dias de chuva ficávamos confinados à casa dele ou à minha, horas e horas seguidas. Para criança, brincadeira não tem gênero: uma de nossas preferidas era com miniaturas dos Ursinhos Carinhosos. Quando minha irmã nasceu, mamãe, para tentar aplacar meu ciúme quase infinito, comprou três bonequinhos do desenho animado, de cores diferentes e coraçãozinho no bumbum. Meu amigo tinha outros quatro e também o carro em forma de nuvem dos Ursinhos Carinhosos. Passávamos dias imitando as vozes dos brinquedos e voando no carango-nuvem. Brincávamos também com os personagens do Thundercats; ele sempre ficava com o Lion e eu com a Cheetara, um acordo tácito que nunca precisou ser estabelecido em voz alta.

Fingíamos trabalhar num restaurante e fazíamos bolos de lama com pequenos enfeitos de grama, flores e folhas. Infelizmente essa brincadeira durou apenas uma tarde. Eu vestia uma camiseta branca do uniforme da escola que adquiriu um eterno tom encardido e depois disso fui terminantemente proibida de cavoucar o quintal.

Meu melhor amigo me conhecia tão bem quanto a mamãe. Num aniversário de 7 anos que teve o tema “selva” - eu era uma aprendiz de bióloga desde então -, cada pequeno convidado ganhou uma máscara de papel com o rostinho de um bicho e justamente para mim tinha sobrado a de sapo. Que menina na face da Terra ficaria contente com uma máscara de sapo, no próprio aniversário? Mas meu melhor amigo previa minha cara de choro com tamanho azar e escondeu para mim uma máscara de gatinho. A única máscara de gatinho que havia na sacola. As fotografias daquele dia mostram várias imagens de um leão magrelo abraçado a um gatinho de vestido.

Quando, aos 9 anos, tive que mudar de cidade, perdi o contato com ele. Nunca mais o vi ou tive notícias, nem mesmo pelo orkut. Na minha nova escola fiz vários outros amigos e até mesmo encontrei uma substituta - duas, na verdade - para ocupar o lugar dele. Devo admitir que por um tempo o leãozinho foi jogado no limbo da minha memória e esquecido, como ocorre com parte daquelas lembranças de criança que infelizmente ficam desativadas. Estão lá, mas nos esquecemos que não estão esquecidas por completo.

Aos 18 me mudei para Ribeirão Preto, onde fiz faculdade; só voltava para a casa de meus pais nas férias. Num desses períodos, aos 22, estava numa festa quando senti um cutucão no ombro. Era um rapaz alto, cabelo liso castanho naquele estilo ‘bagunçado’, rodeado de outros caras desconhecidos. Me preparei para ouvir uma cantada imbecil e responder alguma coisa mal educada; estava com um péssimo humor e queria ir embora o quanto antes, se possível saindo totalmente incógnita. Mas meu coração falhou uma batida quando ouvi “você não está se lembrando de mim?”. No mesmo instante reconheci naquele cara bonitão meu melhor amigo aos 7 anos, magro e suado em sua bicicleta.

É quase inacreditável e um pouco surreal dizer que o Niwton voltou a ser meu mais incrível parceiro depois de 13 anos e a fase de adolescência totalmente distantes. Apesar de morarmos a centenas de quilômetros um do outro, é ele quem me liga perguntando dos planos para o final de semana, tentando coincidir ao menos um dia das férias e feriados para estarmos no mesmo lugar. É o cara que move montanhas para irmos à festa de formatura de outro colega de infância. É quem se preocupa com os meus problemas, torce pelos meus sucessos, ouve meus segredos e ri das minhas piadas. Depois de algumas semanas sem telefonema, é para ele que faço manha dizendo que não me ama mais, só para ele admitir (mais um vez) o quanto gosta de mim.

Quando alguém supõe que somos ou fomos namorados, revejo algumas cenas da nossa infância como um filme em super 8 e não posso deixar de sorrir. O Niwton é o cara por quem eu me apaixonei quando tinha 6 e escolhi ser sua amiga para não perdê-lo nunca mais.

Shots

1 - Só ontem vi um pedaço da premiação da FIFA para o melhor jogador do mundo em 2007. E quando o Kaka foi lá receber a golden ball, tava com uma cara tão esquisita: meio farol baixo, o sorriso plastificado na cara. Parecia sob efeito de um calmante poderoso ou que tinha fumado unzinho no banheiro.
E não adianta: sempre que eu o vejo lembro da história de que casou virgem e bla bla bla fala com a minha mão. Virou um label do rapaz, parece que tá estampado na testa dele.

2 - Falando em futebol, a Copa SP de Futebol Junior me parece um daqueles açougues em que as carnes ficam numa vitrine expostas para o cliente. Só que, no caso da competição, os compradores são as grandes equipes internacionais que levam embora as melhores promessas. E para o futebol brasileiro sobram a carne moída, o coxão duro e a paleta.

3 - Gente fedida é um problema sério, não só nos ônibus lotados do fim do dia. Apareceu um cara novo na academia na semana passada. Ele conseguiu a façanha de empestear toda a área térrea de aparelhos depois de correr na esteira por alguns minutos. Era um cheiro realmente insuportável, de roupa suja e corpo pedindo banho e desodorante; falta de cuidados de higiene mínimos. Para meu azar maior, o cidadão ainda resolveu fazer uma aula de vale tudo com a turma em que treino. Resultado: era impossível respirar pelo nariz, tamanha a carniça impregnada no ambiente. A sala de tatame onde são essas aulas fica num mezanino bem menos ventilado que o restante da academia, o que impediu o fedor de se dissipar. Por fim, desistimos de manter os ventiladores desligados, porque eles empurravam o cheiro do fundo, onde o sujinho estava, para a frente, onde estávamos as moças (só eu e uma amiga). Apesar de sempre treinar vale tudo e jiu jitsu com os meninos, e de terminarmos a aula com a roupa ou kimonos encharcados de suor, nunca tivemos um exemplar tão fedido que causasse constrangimento. O que há com essa gente que não percebe que o próprio cheiro incomoda os demais? Será que não tem um único amigo sincero para dar um toque? Bizarro.

4 - Mas aquela deve ter sido a semana dos fedidos na academia, porque no dia seguinte surgiu uma gordinha nas esteiras ao meu lado. A franja da garota caía sobre o rosto, dura e brilhosa, tipo cabelo que não é lavado há dias e dias. Os ombros da camiseta estava cobertos de caspa. E as unhas - argh - eram meeeega compridas e sujas. Me deu um *nojinho* básico de ficar por ali e terminei meu treino mais cedo.

5 - Aquele programa Lugar (In)Comum, do Multishow, mostrou ontem uma matéria sobre air guitar (para quem não sabe, é aquela imitação tosca de tocar uma guitar imaginária - dá uma olhada neste video). Lembrei de uma menina com quem morei por um ano e meio durante a faculdade e que também fazia air guitar, porém, inconscientemente e com músicas do Bon Jovi. Era uma das coisas mais ridículas da galáxia e causava alto nível de vergonha alheia, especialmente porque a doida tinha plena certeza de que os solos de guitarra do Bon Jovi eram super hardcore e porque ela começava a performance em qualquer lugar e a qualquer momento. Quando era um estilo mais mela-cueca, a criatura ainda fechava os olhos e balançava a cabeça de um lado para o outro, bem lentamente, no melhor tipo “estou curtindo a melodia”.
Por ser uma garota absolutamente diferente de mim (e de quase todo mundo que conheço), intolerante e até meio preconceituosa, colecionei uma porção de fatos e situações inusitadas que renderiam um post histórico. Fica para outro dia.