Não sei exatamente em que ano se deu a última passagem do cometa Halley pela Terra, mas lembro que era bem pequena. Talvez tenha sido em 86 ou 87, porque a minha irmã ainda não era nascida, mas eu já era capaz de reter esses estranhos fatos na memória. E lembrar deles depois.
Lembro que a minha casa ficou em polvorosa durante toda a semana. Meus pais até compraram um binóculo, vagabundo, para acompanhar melhor o evento. E me explicaram que o cometa passava próximo à Terra somente a cada 73 anos (acho que era esse número), que em geral uma pessoa só tinha uma oportunidade na vida de vê-lo, que seria algo fantástico, único. Já da para imaginar a minha ansiedade, néam?
E aí, uma noite, me acordaram (e eu acho que já era bem tarde, porque eu não queria levantar de jeito nenhum), me colocaram no carro e fomos até um clube na saída da cidade para ver o cometa. Chegamos lá e haviam outras pessoas que tinham tido a mesma idéia! E todo mundo estava olhando para o céu escuro e eu não via nada. Absolutamente nada. Era um céu escuro normal, como em todas as outras noites dos 73 anos em que o Halley não passa. Fiquei achando que o cometa já tinha passado e nós havíamos perdido a hora. Porque, na minha cabeça de 3 anos, a passagem de um cometa seria como uma estrela cadente gigante riscando o céu: algo incrivelmente intenso e muito rápido. Não haviam me explicado que o cometa pode ficar até uma semana à vista, no céu, paradinho. E que ele é pouco mais que uma estrela grandona com uma cauda luminosa. Fiquei com sono e fui dormir no carro. E foi assim que perdi a talvez única oportunidade na vida de ver o Halley.
No dia seguinte meus pais disseram que teria sido realmente muito difícil ver o cometa porque ele só estava visível para os países do hemisférios norte (eles devem ter explicado de outra forma, porque assim eu não iria entender nunca). E foi assim que comecei a ter uma raiva imensa dos países sortudos do hemisfério norte.
Daí, na quinta série, iria haver um eclipse total do Sol. Uma coisa assim, incrível. Nós até tivemos que fazer umas maquetes bizarras com a Terra, o Sol e a Lua, demonstrando como ocorrem os eclipses e tal. Uma coisa assim, inútil. E mandaram a gente levar chapas de radiografias para proteger os olhos durante o momento maravilhoso do eclipse.
No dia seguinte, todo mundo na sala com suas chapas preta e cinza de joelhos, colunas, pinos no braço, uma coisa assim, linda. Tão legal que ficamos vendo as radiografias uns dos outros e quase perdemos o evento. Eu levei minha primeira radiografia do meu joelho (que já era podrinho) e a perdi. Minha mãe ficou bem brava.
Então, fomos para debaixo do sol. Pouco quente? Devia ser umas 11 da manhã e eu moro nos trópicos. E ninguém avisou que seria um processo demorado, esse da Lua entrar na frente do Sol (é isso mesmo?). E foi enchendo o saco ficar lá no sol, braço estendido na frente da cara, e só um pedacinho minúsculo do Sol coberto. Quando já estava, sei lá, metade do Sol tampado, a gente já tinha desistido e estava correndo e se descabelando pelo pátio, que era muito mais divertido.
Mas eu tinha curtido aquilo do eclipse. Tinha achado super fantástico. Mas também tinha achado que eclipse era como o cometa Halley, uma vez a cada zilhões de anos e só para alguns países de hemisférios sortudos. Daí, quando percebi que às vezes tem mais de um eclipse por ano, perdeu a graça. Como é que pode ser especial se acontece sempre?
Apesar desses desapontamentos, por muito tempo eu quis ser astrônoma. Mas essa história fica para depois.
Na verdade, isso tudo foi para mostrar esse site de fotos divulgadas pela NASA. Todos os dias, é divulgada uma nova foto com uma pequena explicação. Se a sua barra de rolagem ficar instantaneamente minúscula, não se desespere. Não é o seu computador pirando. É que há fotos desde 1995. Para “ex-astrônomos”, é de encher os olhos.